A principal preocupação de Moisés, ao se preparar para deixar este mundo, não é em relação à sua família ou aos seus negócios particulares. Quem ocupa sua mente, acima tudo, é seu povo. Preocupado com a escolha de seu sucessor, volta-se para Deus, em prece:
Que o Eterno, Deus dos espíritos de toda criatura, nomeie um homem sobre a congregação. (Números 27:16)
A pressão de Moisés para que a nomeação seja feita de imediato, não se deve à falta de um candidato adequado para a tarefa. Ao contrário, diz o Rebe de Kozk, ele inclusive vislumbra a pessoa com os atributos de um sucessor “natural”. Ele é Pinchás, que acabou de demonstrar uma capacidade inigualável de liderança, revelada pela coragem e ousada sagacidade ao matar os infratores e “fazer cessar a ira de Deus” contra seu povo.
A atitude de Pinchás, o extremado e zeloso, foi até mesmo endossada por Deus. Porém, é exatamente isso que amedronta Moisés, o treinado e experiente líder. Ele gosta de Pinchás e, sem dúvida, aprova seu corajoso feito, mas, ao mesmo tempo, não consegue ver como esse fanático, que numa situação de crise decidiu tomar as leis em suas mãos, pode vir a ser o líder permanente de seu povo. Ele pede a Deus que nomeie o novo líder e passa a especificar as qualidades que gostaria de encontrar na pessoa a ser indicada.
De acordo com o Rashi, o clássico exegeta (e o Midrash), o significado implícito da súplica de Moisés a Deus é o seguinte:
Soberano do Universo, Deus dos espíritos de toda criatura, Tu és o maior conhecedor das mentes de todos os homens e de como a mente de um homem difere da do outro. Nomeie sobre a congregação um homem que seja capaz de suportar as divergências de opinião de cada um de Teus filhos.
O verdadeiro líder não é o fanático intransigente, mas o homem capaz de tolerar todos os pontos de vista. “Um homem sobre a congregação”, alguém superior à fútil politicagem partidária.
Quando Deus responde à súplica de Moisés, designando Josué como o futuro líder (versículo 18), ele o descreve como “homem no qual há este espírito”. Aqui, comenta Rashi: “Um homem que sabe como lutar contra a mentalidade de cada um deles”, para ensinar-nos que ser tolerante não implica necessariamente passividade ou fraqueza de caráter. Um bom líder deve conhecer seu próprio pensamento e ter a habilidade de defender sua posição, e deve ser capaz, também, de mudar de ideia, libertando-se daquelas preconcebidas, Não deve ser do tipo que declara: “Minha decisão está tomada – não me confundam com fatos.”
Dentre os “sinais” de deterioração que deverão ocorrer antes da chegada do Messias, o Talmud menciona penê hador kifnê hakêlev (líderes com o caráter de um cão).
Sobre isso, comenta o Chafets Chayim:
Um cão geralmente segue à frente de seu dono, dando a impressão de que é o animal que está escolhendo o caminho. Mas, na realidade, o cão para de vez em quando para olhar para trás e ver em que direção seu amo quer ir. Um líder que fica olhando para trás para ver onde as massas querem que ele vá, não é um líder. Pode até ser igualado a um cão.
Além de um espírito firme e receptividade, que outras qualidades Moisés deseja encontrar em seu sucessor? Um homem que saia adiante deles (de sua congregação). Um antigo Midrash (Sifri) dá a seguinte interpretação:
Não como os reis de outras nações, que enviam suas tropas para a guerra, enquanto eles mesmos ficam na retaguarda, mas um homem que vá à frente de seu exército.
Por muitos anos, o orgulho das Forças de Defesa de Israel e parte de sua “arma secreta” foi o fato de que a ordem para ir à luta ou tomar parte em qualquer outra operação perigosa não era “Vá!”, e sim, Acharai! – “Sigam-me!” O comandante sempre à frente de seus homens.
Moisés continua e pede para que seu sucessor seja um homem “que os faça sair (para a guerra) e que os faça entrar”. Moisés bem sabia que uma coisa é fazer um povo sair para a guerra e outra, fazê-lo sair da guerra e levá-lo de volta ao lar. A segunda tarefa é muito mais árdua. Um verdadeiro líder tem que ser capaz de fazer as duas coisas.
E o Eterno disse a Moisés: “Toma para ti a Josué, filho de Nun.” (ibid. 27:18)
Josué, como sabemos, foi por muitos anos o assistente mais chegado a Moisés. Ele era o jovem que “não se retirava de dentro da tenda” (Êxodo 33:11) e, apesar disso, Moisés não havia pensado nele para sucessor, até lhe ser dito por Deus: Aqui está o seu homem, em seu próprio pátio. “E porás tua mão sobre ele.”
“E Moisés fez conforme o Eterno lhe ordenara” e o faz sinceramente. Em vez de uma mão, “pôs suas mãos sobre ele” (27:23). E, assim, um líder foi escolhido e encarregado da extraordinária tarefa de conduzir o povo à sua Terra Prometida, há tanto esperada.









