Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAERÁ extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer
Êxodo, Capítulo 6
2 E Deus falou a Moisés e disse‑lhe: “Eu sou o Eterno! 3 E apareci a Abrahão, a Isaac e a Jacob como El Shadai [Deus Todo-Poderoso], mas por Meu nome ‘Eterno’ não Me fiz conhecer a eles. 4 E também estabeleci Minha aliança com eles para dar-lhes a Terra de Canaã, a terra de suas peregrinações, onde moraram. 5 E Eu também escutei o gemido dos filhos de Israel, aos quais os egípcios fazem servir, e recordei Minha aliança. 6 Portanto, diz aos filhos de Israel: Eu sou o Eterno! E vos tirarei de debaixo das cargas do Egito e vos salvarei do seu serviço e vos redimirei com braço estendido e com grandes juízos. 7 E vos tomarei por Meu povo, e serei para vós Deus, e sabereis que Eu sou o Eterno, vosso Deus, que vos tirará das cargas do Egito. 8 E vos levarei à terra, pela qual levantei Minha mão para dá-la a Abrahão, a Isaac e a Jacob, e a darei a vós por herança – Eu, o Eterno.”
- E Deus (Elohim) falou a Moisés. Nestas palavras está inclusa a plena resposta ao desespero de Moisés. Já no versículo anterior, Moisés foi respondido com uma frase genérica de consolo. O que segue é um detalhamento e ampliação da resposta de Deus.
Elohim é o Deus oculto, que age no mundo revelado – Aquele que conduziu tudo o que aconteceu até aqui, em segredo. O desespero, a humilhação, a tristeza e a aflição foram provocados por situações naturais que Deus permitiu que se desenvolvessem e foram o resultado natural da corrupção e do poder do Egito frente à fraqueza e impotência de Israel.
Eu sou o Eterno (Tetragrama). Agora, porém, “Eu sou o Eterno” – Aquele que constantemente renova a existência, que realiza Sua vontade independentemente das situações existentes e até mesmo em completa contradição com elas. Daqui em diante, um novo mundo será criado na humanidade, um mundo que não dependerá de todas as situações que até agora determinaram os fenômenos da história do mundo.
- E apareci a Abrahão. Essa nova revelação de Deus estava preparada desde o início da história judaica, cujos caminhos levaram a esse momento. E assim Deus diz:
“Eu já era o Eterno quando Me revelei a Abrahão, Isaac e Jacob apenas como El Shadai, e não permiti que o Meu reinado como ‘o Eterno’ fosse revelado a eles em vida. Vocês se perguntaram por que a situação só está ficando cada vez pior, e como é possível que a vossa missão só tenha contribuído para aumentar o sofrimento do povo. Vocês não veem que a história da nação, até este momento, está num caminho de contínua decadência? Abrahão foi um príncipe de Deus entre as nações, enquanto Jacob se tornou um escravo miserável, que trabalhava arduamente, que ‘por uma esposa trabalhou e por uma esposa conservou’ (Oseias 12:13) – ou seja, precisou se esforçar para conseguir uma mulher, e então foi forçado a trabalhar mais ainda para mantê-la consigo.
Eu tinha o poder de vos conduzir por um caminho ascendente e bem-sucedido. Em vez de dar um filho a Abrahão em seu 100º ano, podia ter estabelecido para ele uma família antes dos 70 anos de idade e deixar sua descendência florescer e se tornar uma nação que vive sob condições de felicidade e sucesso em sua terra natal. Se assim fosse, no entanto, esse povo não teria se tornado ‘o povo do Eterno’, a nação pela qual Deus (Elohim) se revelaria como ‘o Eterno’ (por meio do Tetragrama). Ela seria meramente como as outras nações, enraizada apenas no mundo das coisas visíveis e concretas. Como todas as outras nações, esse povo se ergueria apenas sobre fundamentos físicos e buscaria para si somente poder e grandeza materiais, enquanto se esforçaria para alcançar espiritualidade e moralidade somente caso estas se adequassem e fossem úteis às suas aspirações materiais.
Mas esse povo não deve ser como as outras nações. Ao contrário delas, ele será embasado unicamente em Deus e no cumprimento da Sua vontade, e só a partir dele e por causa dele é que Deus terá contato com esse mundo terreno.”
O conceito de um Deus livre Todo-Poderoso e da humanidade que se torna livre através Dele desapareceu da face da terra. Os povos e nações se afundaram na materialidade, tanto em pensamento quanto em ação. A aparição do povo de Abrahão deve despertar novamente a consciência da liberdade e livrar a humanidade dos grilhões do materialismo.
Portanto, esse povo deve começar do lugar onde as outras nações estagnaram. Ele teve de desistir de si mesmo, em autodepreciação; ser lançado ao chão, moribundo, “revolvendo em seu sangue” (ver Ezequiel 16:5-6), para que pudesse se reerguer e se tornar uma nação exclusiva e independente, sustentada apenas pela convocação Divina, para que, através do simples fato de existir, declare a todos os povos: “Eu sou o Eterno!”
Este momento da revelação de Deus como “o Eterno” – momento no qual a impotência dos descendentes de Abrahão chegou ao seu ápice – já estava nos Seus planos desde o princípio; desde quando alterou o sentido da trajetória do destino dos patriarcas para baixo e Se revelou a eles apenas como El Shadai – Aquele que tem poder suficiente para auxiliar o homem durante todas as vicissitudes da vida.
não Me fiz conhecer a eles. Na verdade, encontramos o nome “Eterno” nas histórias dos patriarcas em diversas ocasiões. No entanto, a intenção aqui não é dizer que lhes faltava o mero saber desse nome. “Conhecer o Eterno” indica um conhecimento muito mais profundo, que talvez só o alcancemos em sua totalidade após o término de toda a nossa experiência histórica, conforme as palavras de Isaías sobre essa redenção final: “Portanto, farei Meu povo saber Meu nome” (Isaías 52:6). “Conhecer o nome do Eterno” significa compreender o caminho da conduta de Deus que esse nome indica. Esse entendimento não pode ser alcançado em sua totalidade somente através da experiência comum de todas as gerações. Os patriarcas viveram apenas no início desse caminho! Portanto, “mas por Meu nome ‘Eterno’ não Me fiz conhecer a eles” significa: “Não me fiz conhecer a Eles como aquele cujo nome é ‘Eterno’.”
- E também estabeleci Minha aliança. Sendo Eu “o Eterno”, estava em Meu poder estabelecer a eles e a seus descendentes imediatamente como a semente livre e independente de uma nação. Mas, ao invés disso, estabeleci Minha aliança com eles para lhes dar uma terra na qual eles seriam peregrinos pelo resto de suas vidas.
- e recordei Minha aliança. Minha aliança também estava no centro dos Meus pensamentos no momento que seus descendentes foram submetidos a um sofrimento indescritível, que pôs em perigo sua própria existência. De fato, foi somente por essa aliança que permiti que tudo isso acontecesse.
- Portanto, diz aos filhos de Israel. Deixe claro para eles; direcione as palavras para que entrem em seus corações e compreendam. Não está escrito el benê Israel (aos filhos de Israel), pois você não deve se dirigir a eles diretamente, mas livnê Israel (pelos filhos de Israel) – você deve dizer buscando o bem deles. Fale com os anciãos e deixe-os transmitir ao povo, para que eles entendam e gravem em seus corações que “Eu sou o Eterno”. Somente com a revelação do “Eterno” será possível realizar-se o que é prometido a seguir – “vos tirarei”, “vos salvarei”, “vos redimirei” e, por fim, “vos tomarei”, em contraste com a situação presente.
Há quatro linguagens de redenção – quatro aspectos da obra da redenção – e o seu esclarecimento é crucial para entendermos tudo o que se segue. “Vos tirarei”, “vos salvarei” e “vos redimirei” são estágios da salvação do exílio atual. “Vos tomarei” é o destino reservado a eles – que é todo o propósito da salvação.
O exílio egípcio possuía três aspectos: as cargas, o serviço e a ausência de um redentor – a necessidade de redenção (uma vez que foi dito “vos redimirei”, mas sem especificar do que seriam redimidos). No Pacto entre as Partes Cortadas, esse exílio foi descrito a Abrahão como peregrinação, escravidão e aflição. E essas três formas de sofrimento realmente se concretizaram:
A “aflição” – a agonia, a humilhação e a privação de toda a alegria da vida – foi expressa pelas “cargas do Egito” que lhes foram impostas de maneira cruel e carregada de escárnio. Uma pessoa pode se tornar “escrava” sem, no entanto, sofrer com “cargas” degradantes; por outro lado, ela pode ser sobrecarregada com “cargas” sem que se torne escrava. No Egito, contudo, havia também a escravidão – a privação da liberdade – que se expressava na “servidão do Egito”, a subjugação imposta sobre eles pelos egípcios.
A “peregrinação” foi expressa na ausência de um “redentor”, já que essa é a essência da situação do “peregrino”. De fato, a Torá mais tarde definirá o “peregrino” como alguém que “não tiver redentor (goêl – mas no sentido de herdeiro)” (Números 5:8), um parente que enxergue o sofrimento de seu irmão de sangue como se fosse seu e venha em seu auxílio.
Num país comum, o estrangeiro não tem quem o apoie ou respalde. Se uma injustiça é feita a um cidadão, mesmo que seja da classe mais baixa, qualquer outro cidadão a verá como uma injustiça cometida contra ele mesmo, pois isso enfraquece o poder da lei do Estado – a base da segurança civil e de seus direitos. O estrangeiro, no entanto, “não tem direitos aqui” e, portanto, não encontra nenhum cidadão, detentor de direitos, que saia para lutar por sua causa. No que diz respeito a eles, não pode haver violação dos direitos do estrangeiro, já que ele não tem nem o direito de estar ali. Ele deve ser grato por ter sido permitido a ele ficar ali e que nenhum mal maior lhe tenha acontecido. Este é o difícil destino do estrangeiro desprovido de pátria e de direitos.
Assim, todos os sofrimentos dos nossos antepassados vieram naturalmente pelo fato de serem “peregrinos” no Egito. Por serem “estrangeiros”, tornaram-se “escravos” e “pobres afligidos”. E essa é a razão pela qual a primeira coisa revelada na visão profética sobre esse exílio foi a “peregrinação”: “tua descendência será peregrina (…) e a farão servir e a afligirão” (Gênesis 15:13).
Mas aqui, durante a revelação sobre a redenção, depois que este exílio se tornou uma realidade, a ordem foi invertida: “aflição” (“vos tirarei”), “servidão” (“vos salvarei”) e “peregrinação” (“vos redimirei”). Em primeiro lugar, foi prometida a salvação da situação concreta, cujo sofrimento sentiam de maneira tão intensa em suas vidas cotidianas; somente então o texto aborda a raiz do problema e anuncia a sua remoção.
E vos tirarei de debaixo das cargas do Egito. Não foi dito “Destruirei as suas cargas, para que vocês se levantem com suas próprias forças”, mas sim, deixarei as cargas intactas, levantarei vocês e os tirarei de debaixo delas, de modo que vocês fiquem completamente inativos no momento da redenção.
e vos salvarei (hitsaltí) do seu serviço. Natsel é a pronúncia mais acentuada de nashel. “E saltar (venashal) o ferro da madeira” (DT 19:5) – se a ponta de ferro do machado se soltar do cabo. Hitsil (salvar) significa provocar a liberdade de algo que é mantido contra sua vontade por alguém com uma ferramenta ou instrumento.
Os egípcios colocaram um fardo pesado sobre o vosso pescoço, do qual não sois capazes de vos desvencilhar. Bem, que todos saibam disso: Eu tenho o poder de vos tirar de debaixo das cargas das quais vós não podeis escapar por vós mesmos. Além disso, o Egito vos mantém como bens móveis desprovidos de vontade própria. Eu vou golpeá-lo em seu braço, para que seja forçado a enviar-vos.
e vos redimirei (gaaltí) com braço estendido e com grandes juízos. Vocês não possuem uma única alma no Egito que seja próxima de vocês, como um parente, que se sinta pessoalmente prejudicada pelo abuso ao qual vocês estão submetidos. É por isso que Eu Me tornarei o vosso Parente. Eu estou sendo ferido todo o tempo que um dos Meus filhos é ferido. Por Meu intermédio vocês recuperarão os seus direitos e a sua independência.
Enquanto hatsil indica a salvação de um perigo iminente, gaál indica a redenção de um processo de extermínio que já começou. Gaál é próximo de gáchal, um carvão em brasa retirado do fogo depois que o fogo já havia se apossado dele.
(É interessante notar que quando o verbo gaál está no modo megoál (ver Malaquias 1:7), passa a significar o contrário de seu sentido básico. Em sua conjugação comum, ele significa trazer algo para perto de si a fim de salvá-lo de humilhação ou de qualquer dano. No modo megoál, no entanto, significa afastar algo de si a fim de poupar a si mesmo da humilhação ou do dano vinculados a ele. Próxima deste sentido do verbo gaál está a palavra ga’al – “rejeitar”; o mesmo é encontrado no conceito chamado pelos sábios de hagalá – a purificação de qualquer material que estava absorvido no objeto.)
Nas leis de Israel, o “redentor” (goêl) vem ao auxílio de seu parente quando este foi forçado a vender sua propriedade ou a si mesmo por causa de sua situação de aperto financeiro, perdendo, assim, segundo a lei judaica, sua liberdade ou sua propriedade (Levítico 25:25).
Esta é também a atitude de Deus para conosco. O Egito não tinha o direito de infligir sofrimento e servidão ao povo de Israel. Mas uma vez que eles nos viam como “peregrinos”, estrangeiros, e nos sobrecarregaram com impostos especiais e outros métodos opressivos, em troca do “favor” de suportar a nossa existência, os egípcios viam isso como algo justo. E esse fenômeno não se limitou ao antigo Egito. Deus veio em auxílio da nação desprovida de pátria e, por essa razão, também desprovida de direitos. Seu braço estava estendido para longe, sobre todo homem e sobre toda coisa, e Ele reivindicou o Seu direito, que prevalece sobre o de qualquer ser humano e o de toda a Criação. Por esse direito Divino, Ele restaurou a justiça e a pátria de Seu povo perseguido; e por meio de “grandes juízos” que impõem a ordem no mundo, Ele forçou o reconhecimento de Sua justiça.
O conceito de goêl (redentor) expressa a essência desses dois ditos conflitantes: “Israel é Meu filho, Meu primogênito” (acima 4:22) e “Eis que Eu matarei a teu filho, teu primogênito” (acima 4:23). Tu estás me privando do Meu filho torturado; ao perder o teu filho, tu sentirás a Minha dor!
- E vos tomarei. No momento em que vocês estiverem em pé, de cabeça erguida, livres e cientes dos seus direitos humanos, Eu os tomarei como Meu povo. Assim que se tornarem livres, se tornarão o Meu povo! Vocês serão Meu povo, sem pátria e sem um território próprio, somente através de Mim!
Meu povo. Essas duas breves palavras são a primeira declaração sobre o destino de Israel e expressam a característica que torna o judaísmo tão único. Não é de todo apropriado se referir ao judaísmo como “a religião judaica”. É falta de pensamento definir o judaísmo como uma “religião” e colocá-lo em consonância com as outras religiões, para então se espantar por essa “religião” incluir tantas coisas que vão além do âmbito comum de uma “religião”. “Por Meu povo” significa que Israel deve ser a nação de Deus.
Esta afirmação, em si, já deixa claro que o judaísmo, conforme estabelecido por Deus, não é de forma alguma uma religião. É verdade que o judaísmo inclui elementos que geralmente são definidos como “religião”, mas o conceito de “judaísmo” é completamente diferente e muito mais amplo do que isso. Numa “religião”, Deus só tem templos, igrejas, ordens de sacerdotes, congregações de crentes etc., enquanto povos e nações estão sujeitos apenas a reis e governos, e são baseados nos conceitos de um Estado, e não na religião ou em Deus. Mas no judaísmo, Deus não fundou uma comunidade religiosa, mas uma nação, e toda a vida nacional será moldada por Ele. Israel será “Seu povo”, e não apenas uma congregação de crentes.
Quão diferentes são os caminhos da língua sagrada – o hebraico – em sua escolha das expressões apropriadas para os conceitos de “povo” e de seu parceiro – o “rei”!
Em alemão, o rei (könig) é aquele que detém o poder (der könende), e o povo que o segue (folk) são aqueles que devem ser ouvidos em sua voz (das folgende). (Nas línguas latinas, o conceito de “povo” é acompanhado por uma conotação mais forte de desprezo e depreciação.) Portanto, o povo existe apenas em função do rei; sem um rei não há uma nação.
Este não é o caso em nossa língua sagrada. O conceito de “povo” não depende de nenhum tipo de relação com uma autoridade superior que esteja acima ou seja externa a ele. Povo é um conceito que existe por si só e cujo aspecto central é apenas a inter-relação entre um grande número de pessoas (am é semelhante a im, da raiz imám, que significa “com eles”). O significado básico de mélech (rei) é aquele que serve como a “cabeça” dos outros, que agrada a nação com sua sabedoria e inteligência e que pensa pelos outros. (Compare com a palavra nimlach, na linguagem dos sábios, que significa “consultar-se com alguém”. Próximo a mélech, no nível de pronúncia, está malac – decapitar.) Verifica-se que o rei existe em função da sociedade e do povo, para que o povo consiga chegar – um através do outro e em conjunto com o outro – ao seu propósito final; o contrário, no entanto, não é verdadeiro, pois a sociedade não existe em função do rei.
Quando Deus diz “e vos tomarei por Meu povo”, isso significa: A vossa vida pública deve ser guiada pela Minha sabedoria e revelar o Meu espírito.
Ainda estaria por vir uma geração cujos membros procuraram limitar o conteúdo de sua conexão com Deus à vida do Templo e seus sacrifícios; e mesmo quando foram advertidos por serem socialmente corruptos, esconderam-se atrás do clamor: “Ó, o Templo do Eterno, o Templo do Eterno!” (Jeremias 7:4). Então o profeta vociferou contra eles: “O Templo do Eterno são eles!” – eles mesmos, os membros do povo, devem se tornar o Templo do Eterno, conforme explicado posteriormente pelo profeta: “Pois nada falei nem ordenei a vossos pais, no dia em que os tirei da Terra do Egito, em relação às ofertas de elevação ou às ofertas de pazes” – ou seja, Eu não os aproximei de Meu serviço para que sacrificassem oferendas – “Somente isto lhes ordenei: Escutai Minha voz e serei vosso Deus e vós sereis Meu povo” (ibid. 7:22-23).
É verdade que Deus também nos falou sobre sacrifícios. Além disso, no dia da nossa redenção do Egito, Ele nos estabeleceu como povo específica e exclusivamente através de um sacrifício. Contudo, Ele não nos fez uma “congregação de Templo” para que oferecêssemos sacrifícios. Mas foi por meio de um sacrifício que Ele nos transformou em “povo”.
É precisamente essa instituição – o sacrifício – que estabeleceu o país pela primeira vez em seus princípios e diretrizes básicos, como veremos mais adiante (ver adiante comentário sobre 12:3-6). Enquanto outras nações estão unidas pela sua parte comum da terra pátria, o povo judeu se torna unificado em sua participação comum no Deus de Israel.
“E vos tomarei por Meu povo” – através do Êxodo do Egito; “e serei para vós Deus” – através da outorga da Torá; “e sabereis que Eu sou o Eterno, vosso Deus, o que vos tirará…” – através das jornadas pelo deserto.
Somente através do que esse povo passará no deserto chegará à conclusão de que o Eterno não os libertou do Egito apenas uma vez, mas sim, que será eternamente seu Deus. Ele os protegerá no presente e em todos os tempos, no futuro, para que não desmoronem sob as “cargas do Egito”.
Nunca voltaremos a ser “escravos”, nunca mais seremos “peregrinos”, mas teremos de suportar “cargas” enquanto formos seres humanos. Enquanto permanecermos fiéis a Deus, podemos confiar em Sua firme e até milagrosa ajuda. Isto é o que deve ficar claro para nós, através de nossas jornadas pelo deserto, até o final de todas as gerações; e somente então –
- E vos levarei. Israel se tornará uma nação completa mesmo antes de receber sua própria terra. Portanto, a sua existência como povo não depende da posse de um país, mas a posse de seu país depende do cumprimento fiel de seu papel como povo.
por herança. Ela já havia sido dada aos vossos pais em pensamento, e vós a recebereis apenas como seus herdeiros.

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAERÁ extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.








