Shirlei Massapust
Em 1891 empregados de obras de engenharia escavaram até quatro metros de profundidade do solo na estrada Francouská, no cruzamento com a rua Předlácká, em Brno, na República Tcheca. Lá eles acidentalmente encontraram um túmulo (Brno II) contendo os restos mortais e pertenças dum homem adulto, falecido na faixa etária dos 50 anos, cuja ossada revelou sinais de periostite.
O sítio foi catalogado e explorado por arqueólogos. Apesar da doença causadora de dores nas juntas, o falecido conseguiu obter cerca de seiscentos fósseis de moluscos da espécie Dentalium badense, todos coletados de um em um em antigos depósitos geológicos na bacia de Brno-Viena. Então as centenas de conchas – certamente reunidas durante anos – foram perfuradas para a passagem dos fios que compunham a touca enterrada consigo, envolvendo sua cabeça.
O falecido deveria gostar de coisas belas, pois, além de ostentar um complicado adorno de cabeça, o esqueleto humano estava posicionado entre esculturas de discos de espinha dorsal de rinocerontes lanudos e esculturas de marfim de mamute em forma de discos, de baqueta e até de um boneco.
Quem era essa pessoa capaz de mobilizar uma comunidade da era do gelo na tarefa estafante de lhe trazer preciosidades? Não sabemos. Porém sua riqueza sugere o status excepcional do falecido. A melhor hipótese foi levantada por Güner Coşkunsu, uma arqueóloga com PhD em Harvard, que o descreve como um bonequeiro.
É um tanto irônico que o único objeto do Paleolítico Superior que alguém poderia assumir como sendo um brinquedo (…) não provém do túmulo de uma criança, mas sim de um homem adulto: O marionetista, talvez? Para além disso só podemos especular se objetos de arte são figuras de ação ou brinquedos.[1]
Ninguém pensou na hipótese de magia simpática onde a enfermidade do homem com problemas nas articulações seria absorvida pelo seu vulto, um boneco articulado, com efeito placebo. Ou ainda quando, na morte, o vulto idealizado serviria de substituto ao corpo imperfeito, semelhante a uma figura shabit egípcia ou a uma calunga brasileira.
O boneco ou escultura de marionete foi feito com cortes de instrumento de pedra numa peça substancial de marfim de mamute. Três das seis partes do corpo resistiram à erosão. A figura em escala 1/3 possui uma cabeça de 6,7 cm com músculos faciais bem trabalhados para os padrões da época. Pequenas linhas riscadas no queixo e por traz da cabeça representam fios de cabelo. Na parte menos danificada do tronco de 13,5 cm ainda podemos ver o mamilo direito, o umbigo proeminente, o pênis com uma pequena incisão marcando a uretra e também os testículos, todos esculpidos em relevo.
A cabeça e o tronco têm perfurações opostas que provavelmente facultavam o movimento com um bastão. O braço esquerdo, levemente dobrado no cotovelo, possui uma junta no topo para movimentar a peça. A mão se perdeu por danos no material, mas o destacamento dos membros inferiores era uma característica da base do tronco porque um furo na parte intacta da bacia sem sombra de dúvida suportava uma perna móvel. Ou seja, é seguro assumir que o boneco possuía ao menos cinco articulações.

Foto © 2013, The British Museum.

Reconstrução do ilustrador tcheco Libor Balák.[2]
Fotos do artefato apareceram na revista National Geographic, Vol 174, Nº 4, outubro de 1988. De 07/02/2013 a 26/05/2003 a Galeria 35 do British Museum recebeu a exibição Ice Age Art: arrival of the modern mind, com várias peças datadas de 40.000 a 10.000 anos, reunidas e organizadas sob a curadoria de Jill Cook. Um dos objetos selecionados foi este que é o mais antigo boneco conhecido, emprestado pelo Instituto de Antropologia do Moravské Zemské Muzeum, de Brno, ao cujo acervo ele pertence.
Paul B. Pettitt e Keble College, ambos pesquisadores da Universidade de Oxford, submeteram um fragmento da costela do bonequeiro ao teste de radiocarbono, o qual indicou a datação de 23.680 ± 200 anos RCYBP, ou uma idade provável entre 23.280 e 24.080 anos RCYBP.[3] Por isso Jill Cook estimou a idade do esqueleto e suas pertenças em 26.000 anos.[4] Pela datação dos ossos do bonequeiro o arqueólogo britânico Timothy Insoll classificou o boneco como um objeto do período Gravetiano tardio.[5] Dominique Henry-Gambier, arqueóloga pesquisadora do período Gravetiano, discordou pois aquele túmulo pode não ser suficientemente antigo.[6] Há uma fotografia em alta resolução do esqueleto e de todas as suas pertenças na Wikimedia Commons.[7]
[1] COŞKUNSU, Güner. The Archaeology of Childhood: Interdisciplinary Perspectives on an Archaeological Enigma. Ney York, SUNY Press, 2015, p 181.
[2] BALÁK, Libor. The Gravettian of Moravia – The Pavlovian and the Willendorf-Kostenkian. Translated and modified by Vít Lang after discussions with the author. © Antropark 2006. Hyperlink: <http://www.iabrno.cz/agalerie/pavlova.htm>.
[3] PETTITT, Paul B & TRINKAUS, Erik. Direct Radiocarbon Dating of the Brno 2 Gravettian Human Remains. Em: Anthropologie XXXVIII/2. Brno, Anthropos institute (Moravian museum), 2000, p 149-150. URL: <http://puvodni.mzm.cz/Anthropologie/article.php?ID=1603>.
[4] COOK, Jill. Ice Age Art: The arrival of the modern mind. London, The British Museum Press, 2013, p 99-102.
[5] INSOLL, Timothy. The Oxford Handbook of Prehistoric Figurines. Oxford, Oxford University Press, 2017, p 691.
[6] HENRY-GAMBIER, Dominique. Comportement des populations d’Europe au Gravettien: pratiques funéraires et interprétations, p 399-438. Em : PALEO, Revue D’Archéologie Préhistorique. URL: <https://journals.openedition.org/paleo/1632>.
[7] SHAMAN OF BRNO, GRAVETTIAN, ANTHROPOS, BRNO. Em Wikimedia Commons. Adicionado por Zde em 23/05/2018. URL: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Shaman_of_Brno,_Gravettian,_Anthropos,_Brno,_187989.jpg>.








