Texto de G. B. Marian. Traduzido por Caio Ferreira Peres
Jesus é um alienígena morto; Satã é uma gosma senciente pré-histórica; e “Deus” é o maior super vilão de todos os tempos. Esta teologia fictícia única me ajudou a pensar fora da caixa, certamente!
Provavelmente não é justo que muitos dos meus filmes favoritos sejam filmes de John Carpenter (ou relacionados a Carpenter), mas é verdade, e tenho certeza de que ninguém está surpreso com isso. Já falei sobre três desses filmes—Halloween (1978), O Enigma de Outro Mundo (1982) e Halloween III: A Noite das Bruxas (1982)—mas uma das obras-primas menos conhecidas de Carpenter é Príncipe das Sombras (1987), no qual o criador de Michael Myers nos dá sua versão do “diabo”. E é a abordagem mais original e envolvente que já vi sobre o assunto. Se você está esperando ver algo como Tim Curry com chifres de bode, ou mesmo Al Pacino liderando um escritório de advocacia, pense novamente. Em Príncipe das Sombras, de Carpenter, tudo o que achamos que sabemos sobre “Satã” é jogado pela janela, e o que se revela verdadeiro sobre ele é muito mais terrível do que qualquer coisa imaginada por estudiosos bíblicos ou teólogos cristãos.
O professor Howard Birack (Victor Wong) é um professor de física quântica de renome mundial na Universidade de Kneale, e seus alunos de pós-graduação são algumas das melhores e mais brilhantes mentes jovens em seu campo. Há Brian (Jameson Parker, que se assemelha a uma versão mais jovem de Tom Atkins em Halloween III); Catherine (Lisa Blount, uma matemática); e Walter (Dennis Dun, um grande brincalhão), entre outros. Esses cientistas em ascensão estão todos perplexos com seu instrutor, que os assusta com histórias sobre como nossas noções humanas de “senso comum” se desfazem no nível subatômico, evaporando-se em “fantasmas e sombras”. Talvez não fosse tão assustador ouvir essas coisas se não houvesse tantos fenômenos astronômicos estranhos acontecendo ultimamente. Algo no ciclo lunar parece diferente, e há também uma supernova recém-descoberta sendo noticiada na TV. Alguma estrela distante morreu há incontáveis eras, e as partículas dessa explosão só agora estão chegando à nossa galáxia.

Então, um padre católico (o magnífico Donald Pleasence) pede para se encontrar com o professor Birack. O padre afirma ter feito uma descoberta terrível e pede a ajuda de Birack para fazer algo a respeito. Birack acompanha o padre até uma igreja abandonada chamada St. Goddard’s. Ao descerem para o porão labiríntico da igreja, o padre explica que estava a caminho de visitar outro clérigo, que infelizmente morreu antes que o padre pudesse chegar. Depois de ler o diário de seu colega falecido, o padre descobriu que ele estava morando sozinho em St. Goddard’s, mantendo algo escondido no porão. O clérigo fazia parte de uma seita tão secreta e poderosa que nem mesmo o Vaticano questiona suas ações. Conhecida apenas como “a Irmandade do Sono”, a seita protegeu o que quer que o clérigo estivesse escondendo na casa de Goddard durante todo esse tempo. O clérigo era o último membro remanescente da seita e, agora que ele faleceu, o padre sente que é seu dever continuar o trabalho da Irmandade de alguma forma.
Quando Birack e o Sacerdote chegam ao centro do porão, encontram um santuário decorado com inúmeros crucifixos, todos eles cercados por um objeto que faz Birack parar de rir. É um enorme recipiente cheio de uma gosma verde brilhante e rodopiante, e algo nessa gosma faz com que os dois homens sintam que estão sendo OBSERVADOS. Quando Birack pergunta ao padre o que pode ser esse objeto, o padre se refere a ele com pronomes masculinos (“ele”), como se fosse uma entidade senciente. Ele também sugere que o objeto pode ter algo a ver com a lua e a supernova, e que pode haver alguma besteira ainda mais maluca pela frente. Há algo que Birack possa fazer para ajudar a se livrar dessa coisa maldita?


Os cientistas se revezam para cochilar durante a noite e, sempre que dormem, cada um tem exatamente o mesmo sonho: uma visão de uma gravação de TV feita por alguém. A filmagem mostra uma figura hedionda à espreita em frente à igreja na qual eles estão dormindo. Há também uma voz distorcida no pesadelo que diz:
“Estamos usando o sistema elétrico do seu cérebro como receptor. Não conseguimos transmitir por meio de interferência neural consciente. Você está recebendo esta transmissão como um sonho. Estamos transmitindo do ano 1-9-9-9. Você está recebendo esta transmissão para alterar os eventos que está vendo. Nossa tecnologia ainda não desenvolveu um transmissor forte o suficiente para atingir seu estado consciente de percepção. Mas isso não é um sonho. Você está vendo o que realmente está ocorrendo. Isso não é um sonho”.

Quando os cientistas fazem a datação por carbono do contêiner no andar de baixo, descobrem que seu conteúdo mineral tem mais de sete milhões de anos e que ele também veio do espaço sideral. Há um mecanismo de abertura na parte superior, mas, estranhamente, a tampa só pode ser aberta POR DENTRO. Nenhuma análise da gosma verde brilhante pode ser feita, mas todos começam a sentir que ela está VIVA e os OBSERVANDO de alguma forma.
A equipe também encontra um antigo manuscrito da Irmandade do Sono que parece conter equações diferenciais—vários séculos antes da invenção dessa matemática! De acordo com esse texto (que também parece ser anterior ao Novo Testamento), Jesus Cristo não era um ser sobrenatural, mas um extraterrestre de outro planeta em alguma galáxia distante. Jesus escapou de seu planeta natal quando o sol de seu sistema solar entrou em supernova e chegou à nossa Terra milhares de anos depois, aterrissando na Judeia ocupada pelos romanos. Lá, Cristo andou por toda parte usando sua avançada ciência médica alienígena para curar as pessoas. Ele também tentou alertar a todos sobre o que havia destruído seu planeta natal. Os alienígenas do planeta natal de Jesus descobriram que existe de fato uma Mente Universal que pode controlar o comportamento das partículas subatômicas em todo o tempo e espaço. Mas, em vez de um Criador amoroso, esse Ser Supremo é um Destruidor irado, que busca não sustentar, mas aniquilar todas as coisas.

Ninguém quer realmente dizer isso, mas depois de ouvir tudo isso, todos sabem exatamente o que—e, mais importante, QUEM—está observando-os de dentro daquele contêiner no porão.


E é nesse ponto do filme que a gosma verde brilhante ABRE SEU PRÓPRIO RECIPIENTE e começa a se borrifar nas pessoas, diretamente em suas bocas. Depois que elas se engasgam com a gosma por um tempo, ela assume o controle total de seus corpos, efetivamente “possuindo-as”. Isso explica o que aconteceu com todos os moradores de rua zumbificados que estavam à espreita do lado de fora da igreja e por que eles matam qualquer um que tente sair. O fato de estar morto também não impede que a gosma possua seus hospedeiros, pois vários dos corpos mutilados dos cientistas também são convertidos em zumbis. A maior parte da gosma é absorvida por um cientista em particular, fazendo com que a pobre senhora entre em coma. Os sobreviventes restantes ficam presos dentro da igreja durante todo o dia seguinte, incapazes de chamar ou enviar alguém para pedir ajuda.


Se parece improvável que O Príncipe das Sombras tenha surgido de uma proposta rejeitada para uma sequência de Halloween, basta olhar para o Sacerdote. Ele é funcionalmente semelhante ao Dr. Loomis de Halloween (1978) em quase todos os aspectos; o Sábio Ancião que sabe sobre o Mal e que tenta fazer algo a respeito. Ele até se refere a Satã como seu “prisioneiro” em vários momentos, como se fosse o Dr. Loomis se referindo a Michael Myers. Também parece relevante o fato de Carpenter ter optado por não dar um nome a esse personagem. Quando você assiste a O Príncipe das Sombras com legendas, as legendas identificam o padre como “Padre Loomis” por algum motivo (embora ele nunca seja chamado pelo nome, nem mesmo nos créditos finais). Com base no desempenho de Pleasence aqui, quase acho que O Príncipe das Sombras é, na verdade, uma sequência direta de Halloween em alguma linha do tempo alternativa. Talvez, nesse universo cinematográfico, o Dr. Loomis tenha desistido da psiquiatria depois de atirar na Forma [N. T.: No Original, “Shape”, nome que é usado para se referir a Michael Myers no roteiro original do filme.] no final de Halloween e, em seguida, iniciado uma nova carreira na Igreja Católica. Mas agora ele tem a tarefa de lidar com mais um prisioneiro imparável, e esse é ainda pior do que o anterior!

Pleasence apresenta uma de suas melhores performances aqui. Quando a verdade sobre Satã é revelada, o Padre aceita rapidamente que a Igreja Católica e seus ensinamentos são uma farsa. Mas também podemos ver a terrível pressão que esse conhecimento exerce sobre ele. Quando o Padre se esconde de uma das hospedeiros de Satã, ele fica em silêncio, sussurrando orações desesperadas ao seu deus. É possível ver em seu rosto que ele realmente não acredita mais em quem está orando. Há algo na voz de Pleasence durante essa cena que sempre me faz querer entrar na TV e dizer a ele: “Vai dar tudo certo, padre; vamos invocar SET para nós mesmos e MACETAR esses zumbis nojentos de SEIS MANEIRAS A PARTIR DE DOMINGO!” No entanto, o Padre nunca se torna um problema ou uma responsabilidade para os outros personagens; ele não é nada parecido com o Blair de O Enigma de Outro Mundo (1982), que simplesmente perde a cabeça e tenta matar todo mundo. O Padre claramente não está passando por um momento fácil com essa história de “Jesus do Espaço”, mas seu coração ainda está no lugar certo e ele faz o possível para se manter útil e são.
Outro ator que está realmente fantástico nesse filme é Victor Wong. Você provavelmente já viu esse cara em vários filmes, mas ele também aparece em Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), de John Carpenter, como o benevolente mago do kung-fu, Egg Shen. Wong é outro ator de personagens que geralmente era escalado para desempenhar exatamente o mesmo papel em tudo o que fazia, geralmente aparecendo como monge, vidente ou mestre de artes marciais (como visto em filmes como O Rapto do Menino Dourado, de 1986, e Três Ninjas: Uma Aventura Radical, de 1992). Mas O Príncipe das Sombras é um dos poucos filmes que já vi em que Wong não é tipificado dessa forma. Aqui ele consegue ser um físico quântico, um papel que normalmente seria reservado a um homem branco em 1987. O professor Birack também é um dos personagens principais, o que é especialmente significativo, já que Wong normalmente era escalado apenas para papéis coadjuvantes. De fato, O Príncipe das Sombras apresenta não apenas um, mas dois Sábios Anciões que sabem sobre o Mal e estão tentando impedi-lo: Birack e o Padre.

Quase ninguém NUNCA escreve esse tipo de besteira sobre Jesus Cristo, e sabemos exatamente por que isso acontece, não sabemos? Porque, se alguém escrevesse, os cristãos ficariam muito irritados com o fato de as pessoas desumanizarem suas crenças e tradições. Por alguma razão, isso nunca parece se aplicar a outras divindades e religiões; os escritores desumanizam as crenças e tradições pagãs O TEMPO TODO. Mas O Príncipe das Sombras, de John Carpenter, se vinga disso ao “alienar” descaradamente o cristianismo, dando a Jesus e Javé exatamente o mesmo tratamento que coisas como Doctor Who dão a Set!


Gosto do fato de que Carpenter desconstrói completamente a mitologia cristã aqui. Compare O Príncipe das Sombras com Fim dos Dias (1999), por exemplo. Esse último é um filme de exploração de grande orçamento e de primeira linha que só existe para satisfazer a demanda por sexo e violência. Em princípio, não há nada de errado com isso, mas Fim dos Dias também tenta se passar por um filme “religioso” que quer “assustar você de volta à igreja”. Em O Príncipe das Sombras, o cristianismo não é tratado como um discurso hipócrita; toda a religião é descartada como sendo simplesmente falsa. Absolutamente nenhuma das armas cristãs tradicionais contra Satã (crucifixos, exorcismos, etc.) funcionará. A mensagem que eu tiro desse filme é: “Deus é MAL, e a única maneira de detê-lo é com a CIÊNCIA!” Se Fim dos Dias quer que você vá para a igreja, O Príncipe das Sombras quer que você vá para uma sala de aula de física quântica.
Como setiano, esse filme me toca profundamente, e de pelo menos duas maneiras diferentes. É intrigante pensar que o próprio Satã não é a verdadeira fonte do mal aqui, mas apenas um facilitador para um vilão ainda maior e mais poderoso. O Anti-Deus poderia muito bem ser Apep da mitologia kemética: um desintegrador imparável da realidade que pode ser repelido, mas que nunca pode ser completamente derrotado. É muito fácil para mim imaginar a Irmandade do Sono e seus novos recrutas (o Padre e os cientistas) como uma constelação de almas escolhidas por Set para tentar lançar esse monstro de volta ao vazio. Por outro lado, o filme também me fala em termos de minha própria conversão religiosa, na qual percebi:
- Há essa coisa em minha vida que posso chamar de Deus.
- Esse Deus que experimento desafia tudo o que me foi dito sobre “Deus” quando eu era criança.
- A religião convencional parece não conseguir lidar com esse Deus, porque Ele assusta demais a maioria das pessoas religiosas.
Portanto, assistir a O Príncipe das Sombras, no qual os personagens fazem exatamente essas mesmas descobertas sobre o Anti-Deus, realmente me impressionou. O filme parecia me dizer: “Sim, G.B., não há problema algum em você PENSAR ALÉM DA IDEOLOGIA CRISTÃ!” Quando as pessoas ao meu redor souberam do meu amor por Set, muitas delas insistiram que eu estava “adorando o diabo” e que “queimaria no inferno”. (Algumas pessoas ainda me dizem isso hoje.) O Príncipe das Sombras me ajudou a sair dessa armadilha mental reforçando a ideia de que PODE haver realidades cósmicas superiores que desafiam as expectativas religiosas convencionais. Isso me ajudou a aceitar a verdadeira identidade de Set como um Netjer kemético e a entender que ele não é, de fato, “o diabo”. Também me ajudou a entender que sou um setiano e um politeísta kemético, não um satanista ou adorador do diabo.

Como observação final, John Carpenter normalmente faz a trilha sonora da maioria de seus próprios filmes, e O Príncipe das Sombras não é exceção. O filme apresenta cerca de 50 minutos de música eletrônica sinistra de Carpenter e seu colaborador frequente na época, Alan Howarth. Essa trilha sonora é bela e assombrosa, capturando perfeitamente a ameaça da decadência cósmica total. Antes de começar a compor minhas próprias músicas, esse era um dos meus álbuns favoritos para tocar durante meus rituais de Set. Sem dúvida, foi uma grande influência em meu último lançamento, His Nocturnal Majesty, e eu o recomendo para quem gosta do meu trabalho.
Link para o original: https://desertofset.com/2020/12/11/john-carpenters-prince-of-darkness-1987/








